ROBERTO
DIAS: O MAIOR MARCADOR DE PELÉ
Por André Pontes
Cheguei ao clube e
encontrei um senhor franzino vestindo o uniforme do São Paulo, chamado
Roberto Dias Branco, num campo de futebol society onde dá aulas para a
garotada sócia do São Paulo F.C. Me apresentei e ele me levou para uma sala
reservada, onde era mais calmo para se conversar. No caminho
fui perdendo a timidez. Sim eu estava tímido!
Afinal estava de frente com um dos melhores zagueiros da história do
futebol. Mas sua simpatia e humildade fizeram com que a minha timidez
sumisse. Chegamos então a tal sala (mais reservada que ela eu nunca vi).
Antes de sentarmos ele me oferece um cafezinho e logo depois pergunta com a
maior educação: “Acho que aqui ta bom né? Ninguém vai incomodar”.
Começamos então a
entrevista, uma conversa que durou aproximadamente 45 minutos, mas foram 45
minutos de uma verdadeira aula de história, mais que sobre futebol, aprendi
como ser um homem bom, sincero e humilde. Vou então na próximas linhas
tentar passar para vocês o melhor desta conversa.
Como quem está acostumado a dar
entrevistas, Dias, aos 61 anos, começa a falar sobre sua brilhante carreira
no São Paulo, onde passou mais de 13 anos de sua vida e mais de 500 jogos.
Humilde, não se rotula como o maior marcador de Pelé.
Nem de ser reconhecido como um dos maiores
e melhores jogadores da história do São Paulo.
E relata momentos pitorescos, próprios da
qualidade humana, como o pior momento de sua carreira, quando a torcida
começava a comemorar o título de campeão paulista de 1967, mas no apagar das
luzes Benê, do Corinthians, assinalou um gol que tirou o título do Tricolor,
e o melhor momento, quando de um jogo na Vila Belmiro contra o temido
Santos, o São Paulo saiu com um empate em 3 a 3, onde Dias fez dois gols e
Pelé, a quem ele marcava, fez nenhum.
O danado do coração que lhe tirou do
futebol e a frustração de não ter conseguido disputar uma Copa do Mundo pela
Seleção Brasileira, ou uma Libertadores pelo São Paulo.
Leia, então, um resumo da entrevista:

Tricolornaweb:
Qual a sua data de nascimento?
Dias: 07/01/1943- São
Paulo, mais precisamente no bairro do Canindé.
Tricolornaweb: Como o senhor começou a
carreira?
Dias: Comecei na várzea, onde todos começavam antigamente. Depois fui
para o São Paulo, quando ainda era lá no Canindé, em 58 no infantil. Joguei
no São Paulo de 60 a 73, depois fui para o México.
Tricolornaweb: O senhor é considerado o
melhor marcador do Pelé, como é ter este titulo?
Dias: Eu marquei as costas dele, a
frente, o joelho e o pé, mas não tinha jeito não. O negão era bom mesmo. Eu
dificultava para ele, pois eu era rápido. Eu não tinha grande impulsão, mas
tinha uma boa colocação e ainda dei sorte em alguns jogos contra ele, por
isso que dizem isso.
Tricolornaweb: Qual é a diferença entre
o futebol da década de 60 e o futebol de hoje?
Dias: O que muda é o físico, mas se o
Pelé e o Garrincha jogassem hoje eles estariam fisicamente preparados para
fazer o que faziam antigamente. Hoje em dia existem tantos bons jogadores
quanto antigamente, mas Pelé foi Pelé. Ele era fora de série, eu joguei
contra ele e sei disso.
O dinheiro também mudou muito a cara do futebol. Antigamente os jogadores
se identificavam com os clubes. O Ademir da Guia era do Palmeiras, o
Rivelino do Corinthians, o Pelé do Santos, o Dias do São Paulo.
Hoje não tem mais isso.Cada um vai pelo dinheiro. No meu tempo, quando
ganhávamos do Corinthians, os diretores pagavam o bicho em dinheiro no
vestiário. Eu saia com minha mulher, meus filhos e um casal de amigos para
jantar numa pizzaria. Pronto. Acabava o dinheiro. Isso signficaria, em
valores de hoje, 100 ou 200 reais. Hoje eles ganham 2 mil, 10 mil reais de
bicho. Dá para dar entrada num carro OK. Por isso não ganhei dinheiro na
minha carreira. Mas não me arrependo. Faria tudo de novo. Sempre fui e
sempre serei são-paulino, por isso joguei no meu clube de coração.
Tricolor na web: Qual a grande rivalidade que existe?
Roberto Dias: para nós, jogadores, não tem essa de ser melhor ganhar deste
ou daquele. Nós queremos ganhar de todos. Mas a torcida, desde a minha
época, sempre canta muito mais alto quando ganhamos do Corinthians.
Tricolornaweb: O senhor já jogou
Libertadores?
Dias: Nunca joguei, pois quando o São
Paulo chegou à Libertadores eu estava parado por causa de um problema
cardíaco.
Tricolornaweb: Este problema no coração
foi um grande obstáculo que o senhor enfrentou na carreira, não é mesmo?
Dias: Sim, foi um pequeno enfarto jogando contra o Santos e fiquei
parado por dois anos. Vinha treinar no Morumbi, dava algumas voltas no campo
e só. Até o dia que meu coração criou duas veias alternativas e ai pude
voltar a jogar.
Tricolornaweb: O senhor jogou alguma
Copa?
Dias: Não, em 66 eles convocaram 44
jogadores e eu estava incluso na lista, mas depois na última convocação eu
fiquei de fora, não sei porque pois eu estava bem. Em 70, eu ia com certeza,
mas 1 ano antes da Copa eu sofri uma cabeçada e tive que parar de jogar por
seis meses e não pude ir à Copa.
Tricolornaweb: Qual a melhor fase de sua
carreira?
Dias: Minha melhor fase foi de 63 até
67.
Tricolornaweb: Qual o jogo que o senhor jamais vai
esquecer?
Dias: Tem dois. O primeiro é contra o
Corinthians, quando nós estávamos ganhando de 1 a 0 e só precisávamos da
vitória para ser campeão, quando no último minuto o Bene fez um gol de
cabeça. Quando fomos para os vestiários eu passei pelo túnel e vi milhares
de torcedores chorando. Eles estavam ali preparados para invadir o campo. O
outro jogo é contra o Santos na Vila Belmiro, jogo esse que terminou
empatado em 3 a 3. Fiz dois gols, um de falta e outro de pênalti. E o Pelé
não fez nenhum. Sai do campo pisando em nuvens, pois cumpri meu papel como
nunca.
Tricolornaweb: Qual o melhor time do São
Paulo que o senhor jogou?
Dias: Foi em 70, o time era: Sergio,
Furlan, Jurandir, Dias, Gilberto Sorriso, Edson, Pedro Rocha, Gerson, Terto,
Toninho e Paraná.
Tricolornaweb: Monte uma seleção do São
Paulo com jogadores de todos os tempos?
Dias: Me desculpa, mas essa eu não posso
responder. Não estou fugindo do pau não, mas é impossível. Por exemplo, o
Rogério é o melhor goleiro que eu já vi jogar no São Paulo, mas eu também
joguei com o Picasso, Suli e outros goleiros. Eu tenho um ídolo no São
Paulo, que é o Canhoteiro, ele era o Garrincha da esquerda. Eu digo ídolo,
porque às vezes parece que não temos ídolos, mas temos sim. Eu vibro com
algumas jogadas do São Paulo. Vibro com o Rogério, pela maneira diferente de
ser goleiro. Ele faz gol de falta, de pênalti, tem talvez um dos melhores
passes do futebol brasileiro, então ele é meu ídolo, assim como Canhoteiro,
Toninho Guerreiro, Jurandir, Terto, Bellini, Mauro Ramos de Oliveira e por
ai vai. Eu seria incapaz de montar uma seleção de apenas onze.
Tricolornaweb: atualmente o senhor
trabalha com a escolinha de futebol para fraudinhas, no São Paulo. O que o
senhor fala para a garotada?
Dias: uso um provérbio do general De
Gaulle: "eu posso ser vendido, mas jamais derrotado". Eu digo a eles que
podem estar perdendo de 5 ou 10 a 0, não importa. Tem que lutar sempre,
honrar a camisa do seu time. Tem que correr atrás do objetivo, do sonho,
sempre. Mas tem que ser suficientemente homem para chegar uma hora e
perceber que não dá mais, que tem que partir para outra.
Este é Roberto Dias. Um jogador que foi exemplo de dedicação e amor pela
camisa que sempre vestiu e que hoje transmite todo esse talento e humildade
aos garotos do São Paulo.
13/06/2004
FOTOS
São Paulo
de 1963
Em pé: Ilzo.
Jurandir. Belini. Roberto Dias. Suly e Deleu.
Agachados: Faustino. Cecile Martinez. Benê. Pagão e Sabino.
São
Paulo de 1970

Depois de 12 anos sem
ganhar um título, o São Paulo reforçou sua equipe e chegou ao título com uma
rodada de antecedência.
Em pé:
Bebê. Tenente. Eduardo. Picasso. Gilberto. Sergio. Lima. Edson. Roberto
Dias. Lourival. Forlan e Jurandir.
Agachados:
Everaldo. Carlos Alberto. Paulo. Terto. Miruca. Gerson. Zé Roberto. Toninho.
Nenê e Paraná.
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